
Estou Apaixonado!
“A
indústria dos gestores profissionais,(...)
conseguiu uma performance quase dez pior do que
qualquer investidor teria conseguido se tivesse
simplesmente comprado o índice e seguido
para a praia namorar"
15-02-2008, João
Duque
Isabel,
estou
outra vez apaixonado! Desculpa
anunciar-te isto, assim, no jornal,
e
perante tanta gente, mas não
consigo
manter este “segredo” por
mais
tempo, nem esta vida de mentiras
e
fingimentos a dois. Espero que
me perdoes… Com esta minha
declaração pública
fica
clara a nossa relação
e,
de uma vez por todas, espero que
se dissipem as tuas dúvidas
sobre
a minha pessoa. Tinha de o escrever
hoje dia de São
Valentim.
E aqui vai para a publicação
de
amanhã…
Eu
sei que é quase ridículo
dizer-te isto, depois de 20 anos
de casados, três filhas e
tanta vida comungada a dois. Mas
confesso-te que estou deveras apaixonado!
E se logo à noite não
me deixares entrar em casa pelo
embaraço que esta crónica
te irá causar, desculpa,
mas mais vale um bom desengano
do que andar toda a vida enganado.
Imagina tu, que estando eu a ler
a síntese da avaliação
da performance dos fundos de investimento
de acções nacionais
em 2007, publicada pela APFIN – Associação
Portuguesa de Fundos de Investimento,
Pensões e Patrimónios,
dou comigo a concluir que os mesmos
desvalorizaram em média
9,96%, enquanto o índice
de referência apenas caiu
1%! Isto é, a indústria
dos gestores profissionais, que
cobrou em média 1,96% aos
investidores para lhes gerir as
aplicações, conseguiu
uma performance quase dez vezes
pior do que qualquer investidor
teria conseguido se tivesse simplesmente
comprado o índice e seguido
para a praia namorar! Como estás
a ver Isabel, fiquei preocupado
comigo! Como sabes, só um
estado de uma febril paixão
assolapada me pode estar a toldar
a compreensão para o fenómeno!
Daí concluir: Estou deveras
apaixonado!
Há ainda a hipótese
desses gestores de carteiras terem
passado o ano de 2007 igualmente
apaixonados, perdendo, em consequência,
toda a sua capacidade de análise!
Se assim foi, um deles, coitado,
até me mete dó! O
pobre do gestor viu evaporar-se
mais de 13% da carteira que geria
num só ano! É obra!
Que grande paixão não
vai naquele coração!
Porém, Isabel, se pensas
que estes gestores cobram comissões
em função dos rendimentos
que geram aos seus investidores,
enganas-te! Pois nem outra coisa
seria de esperar num reino de apaixonados.
Imagina se sobre a paixão
caíssem na míngua
da ausência de comissões
de gestão? Seriam levados
pela tísica em dois dias
e nós não queremos
vê-los morrer de amor. Pois
vê tu bem que, ainda anestesiado
pelo inebriante encanto da paixão
que me corrói, fui tentar
encontrar razões para o
fenómeno! E não é que
observei, em delírio amoroso,
certamente, que há uma relação
negativa entre a rotação
das carteiras (calculada pela CMVM)
e a má performance? Isto é,
os gestores que mais rodam a carteira
mais perdem! Ou de outro modo quem
mais tenta mais erra! Mais: fazendo
um exercício simples que é o
de tentar compor uma carteira que
no início do ano tivesse
replicado o mais possível índice,
embora seguindo as restrições
que a regulamentação
impõe a esses fundos, não
fazendo mais nada do que acompanhá-lo,
facilmente se teria obtido um resultado
muito melhor do que a média
da indústria! Por isso só me
dá vontade de lhes recomendar: Ó rapazes
e raparigas gestores de carteiras
de acções nacionais,
por favor vão namorar e
deixem essas carteiras em paz!
Sim, oh minha querida e doce Isabel!...
Hoje tenho a certeza absoluta!
Estou outra vez apaixonado, e por
ti, claro (!), pois por quem haveria
de ser? Um beijinho de São
Valentim…