
Podemos aproveitar
a força do comércio na luta contra
as alterações climáticas?
“As barreiras
comerciais travariam logo à partida qualquer
acordo global de redução das emissões
de carbono. Sem um mercado global aberto de tecnologias
e serviços “verdes”, qualquer novo
acordo global de redução de emissões
já nascerá forçosamente manietado”
03-10-2008, Peter
Mandelson
A
Organização Mundial
do
Comércio (OMC), em Genebra,
acaba
de lançar um debate
público sobre comércio
e mudanças climáticas.
O desafio
pode resumir-se do seguinte modo:
sabemos que precisamos de uma
solução global para
lutar
contra as alterações
climáticas. Sabemos que será rejeitada
toda
e qualquer abordagem às
alterações climáticas
que
vá contra o crescimento
económico dos países
em
desenvolvimento. Vamos ter de romper
a relação que
há entre crescimento económico
e o
aumento das emissões de
carbono
recorrendo a novas fontes de energia
e a uma utilização
mais
eficiente da energia. Vamos ter de
inundar os mercados com estas
tecnologias
em pouco mais de numa década.
A questão que
se
coloca na OMC é a seguinte:
a política comercial pode
ajudar?
Tecnologias “verdes”,
como os painéis solares e
as turbinas eólicas são
bens transaccionáveis como
quaisquer outros. Porém, muitas
economias ainda impõem direitos
aduaneiros significativos às
importações de tecnologias “verdes”,
ou impedem empresas com especialização
na construção de edifícios
energeticamente eficientes ou na
gestão de resíduos
ambientais de operar no seu mercado.
Estas barreiras comerciais travariam
logo à partida qualquer acordo
global de redução das
emissões de carbono. Sem um
mercado global aberto de tecnologias
e serviços “verdes”,
qualquer novo acordo global de redução
de emissões já nascerá forçosamente
manietado.
O que
a UE tem vindo a propor é um
acordo com vista a desmantelar todos
os direitos aduaneiros sobre toda
uma gama de tecnologias ambientais
fundamentais identificadas pelo Banco
Mundial. Estas tecnologias constituem
trunfos concorrenciais que estão
na mão tanto dos países
desenvolvidos como dos países
em desenvolvimento. A Europa é líder
em tecnologias “verdes”,
mas também a China e a Índia
o são, e o Brasil, por sua
vez, está interessado em abrir
mercados para os biocombustíveis.
Um
acordo nesse sentido também
abriria os mercados ao investimento
em serviços “verdes”.
Este pacote faria parte de um acordo
comercial mundial negociado na OMC.
Por outro lado, estamos a velar por
que os acordos de comércio
livre que estamos a negociar com
países como a Coreia e a Índia
dêem prioridade à liberalização
do comércio de produtos e
serviços “verdes”.
Podemos
também recorrer à política
comercial europeia para incentivar
outros países a adoptar políticas
amigas do ambiente. A UE oferece
taxas de direitos aduaneiros especialmente
baixas aos países em desenvolvimento
que tenham ratificado e posto em
prática acordos em matéria
ambiental como o Protocolo de Quioto.
No intuito de contribuir para impedir
a desflorestação, a
UE prevê, a breve trecho, estabelecer
novas regras para que os comerciantes
verifiquem que a madeira vendida
na UE provém exclusivamente
de fontes legais certificadas e geridas
de forma responsável.
Inevitavelmente,
houve quem questionasse se os incentivos
europeus não deveriam ser
tanto de natureza negativa como positiva.
Concretamente, houve quem perguntasse
se a UE não deveria ameaçar
com a imposição de
uma taxa sobre as importações
de países que não subscreverem
um novo acordo global sobre alterações
climáticas. As empresas nestes
países não teriam de
se adaptar às emissões
de carbono, o que equivale a uma
espécie de vantagem concorrencial.
No
entanto, uma taxa sobre o carbono
traria também muitas outras
complicações potenciais.
Numa economia global, impor taxas às
importações para a
UE pode fazer subir os preços
para os consumidores e para as empresas,
pelo que os custos concorrenciais
a preços mais elevados poderão,
em última análise,
superar os ganhos. Os direitos aduaneiros
seriam além disso extremamente
difíceis de administrar e
de aplicar de forma justa. Poderiam
igualmente suscitar retaliações
e provocar uma espiral negativa de
proteccionismo, sob o pretexto da
protecção ambiental.
Porém, não nos devemos
afastar do verdadeiro problema. Ainda
que tenhamos que voltar às
medidas para combater o “parasitismo”,
não estamos sequer em medida
de conhecer a extensão do
problema enquanto não dispusermos
de um acordo que substitua o Protocolo
de Quioto depois de 2012. Se conseguirmos
manter a cooperação
de todos e assegurar que cada um
dá uma contribuição
proporcional – incluindo os
grandes novos poluidores como a Índia
e China – então o problema
pode nem se colocar. Ao invés,
a insistência numa taxa ambiental
só irá afastar parceiros
importantes como a China, parceiro
esse de que necessitamos para a nossa
coligação contra as
alterações climáticas.
A nossa
primeira
prioridade deverá ser
a de
garantir um acordo em matéria
de
alterações climáticas
que
nos proporcione um roteiro global
para
a redução das
emissões. Em segundo lugar
vem
uma política comercial
que
nos ajude a realizar essas reduções.
Precisamos
de uma revolução
na
utilização dos painéis
solares
e noutras formas básicas
de
tecnologias “verdes” que
chegue
a todas as áreas da
economia
global: urbanas, rurais, ricas e
pobres. Para tanto, é necessário
acabar
com as barreiras ao comércio
verde.