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Para onde
vamos?
“A
defesa de que as taxas de imposto não
devem e não podem baixar reflecte
sobretudo uma visão jacobina do Estado,
com raízes seculares entre nós”
04-07-2008, Abel
L. Costa Fernandes
Ultimamente, e em catadupa,
as notícias sobre a economia portuguesa têm sido
francamente desanimadoras. Ficámos a saber o que já se
suspeitávamos. No primeiro trimestre, em Portugal, há contracção
do PIB em relação aos últimos três
meses de 2007: -0,2%. É um resultado sem paralelo pois
em todos os outros países assiste-se a alguma expansão
ainda que, porventura, a taxas moderadas. A evolução
do PIB em relação ao trimestre homólogo
do ano passado é igualmente decepcionante: apenas 0,9%,
isto é, 41% da média da Zona Euro e 36% da média
da UE a 27.
No emprego,
ficámo-nos por um crescimento de 0,9% relativamente
ao período homólogo de 2007, o que é cerca
de metade da média da zona Euro e da UE a 27. Pior do
que Portugal só a Hungria com -1,7%, e igual apenas
a Lituânia.
Das previsões para 2008 e 2009, ano de eleições,
não surge a luz ao fundo do túnel. A taxa de
desemprego persistirá nos 7,9%, enquanto o PIB deverá crescer
a taxas que nos afastam cada vez mais da Grécia, da
Irlanda e dos países do Leste europeu. Ou seja, vamos
ficando irremediavelmente para trás enquanto os outros
crescem e se desenvolvem!
O Governo diz
que o responsável por notícias tão deprimentes é a
crise internacional. Contudo, ainda há pouco afirmava
que a consolidação das contas públicas
havia robustecido a nossa economia, protegendo-a daqueles efeitos.
O certo é que, daquele conjunto de dados oficiais transparece
a ideia de que a economia portuguesa é das mais vulneráveis à conjuntura
internacional. E a constatação de que os outros
países estão a enfrentar com maior sucesso as
mesmas circunstâncias externas, leva-me a concluir que
há certamente factores específicos à nossa
economia que contribuem para tão mau desempenho.
Com um défice das contas públicas de 6.1% do
PIB em 2005 (um autêntico outlier porque em 2004 tinha
sido de apenas 3,4%, e de 3,0% e 2,9%, respectivamente, em
2003 e 2002), os impostos foram substancialmente agravados
por este governo. A política orçamental tornou-se
contraccionista e pró-cíclica. O Governo tomou
estas decisões apoiado pelos opinion makers nacionais,
mas em oposição às opiniões de
economistas estrangeiros de reputação internacional
bem firmada que aconselhavam a redução da carga
fiscal e da despesa pública.
Confiante de
que até ao fim da legislatura a economia mundial atingiria
níveis sustentados de crescimento capaz de impulsionar
a economia nacional via exportações, o governo
esperava colocar rapidamente o valor do défice dentro
dos limites pretendidos para, no momento certo do ciclo eleitoral,
aliviar a carga fiscal sem pôr em causa o objectivo do
défice uma vez que a base tributável teria entretanto
aumentado o suficiente. Porque não há ninguém
que governe para perder eleições, não é crível
que a estratégia do governo fosse outra. O desagravamento
fiscal na fase final da legislatura, em ambiente de crescimento
económico, serviria ainda para aliviar as tensões
sociais e políticas, fruto das violentas reformas lançadas
pelo governo simultaneamnte em várias frentes.
Em 2004 e 2005,
o crescimento médio do PIB em Portugal foi cerca de
68% do da Zona Euro; em 2006 e 2007, e apesar de as exportações
se terem expandido fortemente, o crescimento médio do
PIB português baixou para apenas 58% da média
daquela zona.
Mas se em 2007
o PIB havia crescido 3,3% em relação a 2005,
as receitas totais do Estado* aumentaram 7,1%, mais do dobro
que o rendimento real. E, facto impressionante, 90% do acréscimo
do rendimento real nesse período foi apropriado pelo
Estado sob a forma de receitas! Uma imensa transferência
de rendimento a favor do Estado que serve para alimentar despesas
crescentes, frequentemente sem controlo e quase sempre sem
critério.
Conceder mais
receitas ao Estado é simplesmente facultar-lhe os meios
para aumentar as despesas. O Estado é, antes de mais,
uma gigantesca plataforma de redistribuição do
rendimento, só que essa redistribuição
nem sempre decorre no sentido que idealmente se esperaria.
Também por esta razão, o nosso sistema fiscal
não seja tão progressivo quanto formalmente aparenta.
Não admira que as famílias estejam mais endividadas,
que a emigração tenha de novo emergido, que a
classe média, como dizem as notícias, esteja
a deixar de frequentar os centros comerciais para se passar
a abastecer nas feiras, que a fome e os estados de necessidade
estejam a alastrar e a surgir uma nova classe de pobres, e
que as tensões sociais comecem cada vez mais a extravasar
para as ruas.
O Estado que
temos é demasiado grande e absorve demasiadas energias
dos agentes produtivos, tolhendo-lhes a criatividade e a motivação
para empreender. Dizia M. Friedman que é preferível
ter-se um Estado pequeno com contas desequilibradas do que
um grande Estado sem défice.
Face ao estado
de coisas a que chegámos, defender a baixa das taxas
de imposto e das despesas públicas não é um
acto de irresponsabilidade, nem de ignorância, nem tão
pouco de extremismo político. É uma posição
firmada na teoria económica e na história dos
factos económicos porque, há que o não
esquecer, as receitas fiscais são o produto das taxas
de imposto pela base tributável. Tecnicamente, o principal
nesta matéria é o valor da elasticidade da base
tributável relativamente a variações das
taxas de imposto.
A posição de que, sob certas condições,
a baixa das taxas pode conduzir a um aumento da base tributável
e, deste modo, levar ao aumento das receitas do Estado, tem
sido amplamente discutida nos EUA. Foi assim, por exemplo,
no século XIX a propósito de o aumento das taxas
aduaneiras ser o instrumento a aplicar para reduzir o superávite
do governo; voltou a sê-la no princípio do século
XX num livro de Andrew Mellon intitulado “Taxation: The
People´s Business” (1924), necessariamente de grande
influência política nessa altura; durante os anos
de Ronald Reagan foi muito popular a tese expressa pela conhecida
curva de Laffer; depois disso surge o que alguns designam por “The
New Tax Responsiveness Literature” onde sobressaem trabalhos
de Lawrence Lindsey, Martin Feldstein e outros; também
Hall e Rabushka, que viriam a ter uma enorme influência
na reforma fiscal de alguns países europeus a partir
dos anos 80, entre eles a Rússia, argumentam no mesmo
sentido. Nos EUA, entre outras, as reformas fiscais com redução
das taxas de imposto que produziram aumentos de receitas foram
as do Secretário do Tesouro Mellon nos anos 20 e a de
John Kennedy nos anos 60. Fora dos EUA cita-se com frequência
a experiência dos governos Thatcher. E são por
demais bem conhecidos os mecanismos através dos quais
estes efeitos se podem produzir.
Face às dificuldades económicas e sociais que
atravessamos, os defensores da carga fiscal que temos oferecem
como solução o apoio do Estado às classes
atingidas através de programas específicos de
despesa. Mas então, quais as despesas que, em compensação,
se dispõem a cortar, ou quais os impostos que, segundo
eles, devem ser aumentados?
No fundo, bem
vistas as coisas, a defesa de que as taxas de imposto não
devem e não podem baixar reflecte sobretudo uma visão
jacobina do Estado, com raízes seculares entre nós,
e das quais é obviamente difícil apartarmo-nos
enquanto sociedade.
Mas, certo é que a continuarmos assim não vamos
de certo a lado algum que mereça a pena.
*General Government.
Valores a preços constantes
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