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Robin dos Bosques
ou Zé do Telhado?
“Não é que eu seja rico
nem accionista directo de qualquer petrolífera.
Mas a
simples ideia de ver
o ‘meu’ Estado admitir implicitamente
que vai ‘roubar’ alguém
entristece-me
e preocupa-me”
04-07-2008, João
Duque
Num
belo dia da Primavera de 1992, vivia
eu em Inglaterra com a família,
a qual contava já com a minha
filha mais velha, uma bebé de
dois anos à data, fomos passear à floresta
de Sherwood em Nottingham.
Não mais esquecerei o carvalho
fantástico de uma dimensão
gigantesca que necessita já de
apoios para as ramadas, tal não é a
dimensão e o peso de cada
uma em relação á vitalidade
da árvore. Diz-se que esse
carvalho era o preferido para as
reuniões da quadrilha de
Robin, embora, um pequeno letreiro
por perto o desmistifique. Aquele
carvalho, apesar de muito antigo
e possivelmente já contemporâneo
de Robin (se é que este alguma
vez existiu), dificilmente poderá ter
sido uma referência na floresta
da altura. Então, ele não
passaria de um simples e débil
rebento.
Embarcando
na extraordinária capacidade
dos britânicos de criarem
eventos mesmo a partir de lendas
e mitos, lá comprei uma barretina à Robin,
verde com um penacho, que enfiei
na cabeça da petiza, e toca
de lhe sacar fotos de recordação.
Todas estas
lembranças me foram reavivadas
ao ler que foi anunciada pelo nosso
primeiro-ministro, Eng.º José Sócrates,
a hipótese de aplicar um
imposto sobre as empresas petrolíferas
em Portugal a que se chamaria de
taxa Robin dos Bosques. Uma clara
alusão à ideia de “roubar
aos ricos para dar aos pobres”.
Esta ideia
bizarra incomoda-me. Não é que
eu seja rico nem accionista directo
de qualquer petrolífera.
Mas a simples ideia de ver o “meu” Estado
admitir implicitamente que vai “roubar” alguém
entristece-me e preocupa-me. Será que
o acto de roubar passa a ser legal
e justificável apenas porque
se presume que o lucro de uma actividade é excessivo
ou “impuro”?
E as dúvidas continuam a
assaltar-me.
Qual o limite
razoável para se admitir
que um lucro não é excessivo
e assim evitar uma flecha do “Robin” no
que é a remuneração
do capital e do risco incorrido?
E se as petrolíferas, em
resultado de aumento exorbitante
do preço do petróleo
com uma acentuada redução
da procura, revelarem lucros menores,
ou apresentarem mesmo prejuízo,
poderão contar com a ajuda
do “Robin” para lhes
acudir ou têm de se contentar
com uma bênção
do frei Tuck?
Será que o Estado quando
alienou a suas acções
em oferta pública inicial
deixou claro no Prospecto que seria
previsível a aplicação
de uma taxa de imposto sobre os
lucros agravada para esta actividade?
Ora, a ideia
de tributar os mais ricos ou geradores
de riqueza para redistribuir pelos
mais pobres não é uma
ideia original. É tão
antiga quanto a da concepção
dos Estados, sendo ela, justamente,
uma das funções do
Estado. É através
da cobrança fiscal e aplicação
discricionária por via da
política orçamental
que se dá forma a esta ideia
de recolher para redistribuir de
acordo com padrões de justiça.
Agora chamarem-lhe implicitamente
roubo de Robin dos Bosques é que
me sensibiliza. Quanto mais não
seja pela desconsideração
inaceitável do histórico
personagem português que se
regia pela mesma cartilha e princípios éticos
de Robin, segundo a qual os fins
justificam os meios. Falo claro,
de Zé do Telhado natural
da Aldeia dos Castelões em
Penafiel, e que ao contrário
de Robin foi seguramente uma realidade.
Mas “Zé do Telhado” tem
dois inconvenientes: falta-lhe a
notoriedade internacional que uma
medida destas exige se por acaso
outros países embarcarem
na mesma atitude; e por outro chamava-se
José, o que se presta sempre
a confusões e a indesejáveis
trocadilhos...
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