Fernando
Coelho,
Presidente
da APFIPP
“Esta é uma óptima
altura
para
comprar
fundos
de
investimento”
Na sua
primeira
entrevista
enquanto
novo
presidente
da Associação
Portuguesa
de Fundos
de Investimento,
Pensões
e Património
(APFIPP),
Fernando
Coelho
fala
do fenómeno
da evasão
dos fundos
para
os depósitos
e do
impacto
na indústria
da crise
do subprime.
Critica
os certificados
de reforma
recentemente
criados
e afirma
que é obrigação
do Governo
estimular
a indústria
de fundos
nacional.
16-05-2008,
Mafalda Anjos e Marta Marques Silva
Acaba
por
tomar
posse num momento em que a indústria
de
fundos está mergulhada numa grande crise,
que
alguns vêm como ainda maior do que a de 2000.
Qual
o impacto do problema do subprime na indústria
de
fundos?
A indústria não está em crise, ela
sofre dos seus efeitos. O problema do subprime degenerou
numa crise de liquidez, nomeadamente nos sistemas financeiros
internacionais que, por sua vez, levou a uma desvalorização
dos activos e esse contágio é que afectou
depois a indústria por causa de uma disfunção
entre risco e preço. Porque na verdade, a indústria
portuguesa praticamente não estava exposta ao subprime.
Mas
houve
uma enorme saída de fluxos dos fundos para
os depósitos.
Esta
disfunção entre risco e preço é o
que contagia principalmente os activos que estão
nos fundos mais conservadores. Há uma história
nos fundos conservadores de grande estabilidade, de muito
baixa volatilidade e de retornos que rondam as taxas de
curto prazo (Euribor). Com esta crise, começaram
a desvalorizar, e isto criou uma dinâmica negativa.
Os fundos representavam, em média, nos últimos
quatro anos 20% dos depósitos em Portugal. Em 2007
passaram para 16,3% e agora estão em 15%. Ou seja,
há claramente uma deslocação dos
fundos mais conservadores para os depósitos.
E os
fundos
mais conservadores são aqueles aos quais
os portugueses estão muito expostos…
Sim,
representavam mais de 50% da indústria portuguesa.
Ao mesmo tempo, a crise de liquidez levou a banca a recorrer
a outros instrumentos de captação de recursos
além, por exemplo, das securitizações.
E onde é que os bancos vão buscar dinheiro?
Aos depósitos. São mais agressivos nos depósitos,
oferecem maiores rendibilidades. E naturalmente, um cliente
mais conservador, que estava nos fundos há muito
tempo, começa a ter alternativas extremamente aliciantes.
Foi o que aconteceu.
Mas
o que é que os depósitos oferecem que os
fundos não têm? Afinal, também há fundos
de capital garantido. Porque é que a indústria
não conseguiu responder e inverter esta tendência?
Nos últimos seis meses, houve uma saída
dos fundos sem rendibilidade nem capital garantido mas,
por outro lado, os fundos de capital garantido continuaram
a registar alguma evolução positiva.
As
sociedades
gestoras não podem reagir a uma situação
destas
criando produtos mais atractivos?
Os
investidores saíram dos fundos conservadores para
os depósitos. Isto porque os depósitos,
por natureza, são garantidos. A questão é que,
neste momento, os mesmos fundos de onde os investidores
saíram, na minha opinião, estão bons
para comprar. Porque temos activos de dívida a
desconto, e muitos deles com um nível de risco
reduzido e, portanto, tendencialmente com bons retornos
no futuro.
Este é um bom momento para entrar?
Claramente.
E pode
ser
uma boa oportunidade para experimentar outro tipo de produtos,
para além dos fundos de tesouraria
e do mercado monetário?
Sim, é verdade. Há que retirar lições
desta crise. E a questão da diversificação é fundamental.
Não se pode pôr os ovos todos no mesmo cesto,
e naturalmente, que os produtos bancários fazem
parte dessa panóplia. E os fundos são mais
um produto que o investidor normal tem à sua disposição.
Há novos produtos no mercado, há fundos
diferentes, há fundos de capital garantido, com
ideias inovadoras, há fundos de acções
dedicados a mercados diferentes, como África, a
grandes temas da sociedade... São temas que vão
ficar.
Há lições a aprender acerca do que
não fazer?
Sim.
Por exemplo, tentar fazer “market timing” não
funciona. É necessário aceitar alguma volatilidade
em instrumentos de longo prazo, ter calma e aguentar estas
alturas de queda nas bolsas. Porque se os investidores
andarem a sair e a entrar, aquilo que as estatísticas
dizem é que na Europa, por exemplo, nos últimos
15 anos, quem esteve sempre investido ganhou em média
12%. Quem perdeu os dez melhores dias só ganhou
8%, quem perdeu os 20 melhores dias, só ganhou
5,5%. Isto não quer dizer que não se diminua
o risco, porque esta é também a função
do gestor.
E a
indústria, o que aprendeu com esta crise?
Muito,
sobretudo que os profissionais devem estar preparados
para analisar produtos complexos. Deve-se apostar em criar
maiores capacidades em termos de análise de risco
de crédito, em termos quantitativos.
Quando é que este dinheiro vai regressar aos fundos?
Quando regressar, pode haver alguma mudança na
alocação?
Vejo,
por exemplo, alguns investidores a regressarem às
acções. Mas estamos a falar de investidores
com uma maior cultura de investimento. Penso que até meados
do ano dificilmente as pessoas vão voltar aos fundos
mais conservadores, porque estes continuam com uma concorrência
forte. Quando as taxas Euribor altas começarem
a ter um impacto de repricing dos fundos, as pessoas vão
começar a sentir uma recuperação
na sua rendibilidade. E só a partir daí vejo
as pessoas a regressar aos fundos, sobretudo aos conservadores,
pondo alguma coisa nos fundos de acções.
Mas vai também ter de partir das sociedades gestoras
incentivar os seus distribuidores a fazerem com que os
aforradores regressem aos fundos de investimentos, com
maior diversificação e valor acrescentado.
Mas esta crise vai provocar outra coisa muito importante:
as pessoas vão perceber o quanto estão endividadas.
E isso, sente-se na pele, infelizmente. Pode criar um
movimento de maior poupança no futuro. E isso é importante.
Disse
que
esperava ver os resgates a diminuir entre Abril e Maio.
Confirma-se a sua previsão?
Têm vindo a diminuir, mas menos do que aquilo que
se esperava. Em Abril, ainda sem os números finais,
ainda não foram bons em termos de resgates, embora
estejamos a ver uma diminuição. Continuam
a faltar as subscrições. E neste momento, é interessante
colocar alguma parte nos vários tipos de fundos
porque há boas oportunidades.
No
futuro,
que papel está reservado à indústria
portuguesa de fundos com a enorme concorrência das
grandes
sociedades estrangeiras?
As
sociedades estrangeiras com distribuição
em Portugal, basicamente o que proporcionaram foi um alargamento
da oferta. Por norma, essas sociedades gestoras não
estão a vender fundos que sejam realmente concorrentes
com os grandes fundos da indústria portuguesa.
A concorrência está sobretudo nos “complementos”.
A espinha dorsal do investidor, a base da sua carteira, é sobretudo
garantida pelas sociedades nacionais. Os fundos temáticos,
por exemplo de credit arbitrage, os fundos de China, etc.,
normalmente proporcionados por casas estrangeiras, devem
ser uma pequena parcela da carteira. A competência
dos gestores portugueses é igual à competência
dos gestores internacionais, naquilo em que têm
recursos para desempenhar as suas funções
de gestão. Se uma casa portuguesa não tem
research para fazer China, não faz. Agora se tem
research e analistas para fazer acções europeias
globalmente, sejam elas de crescimento ou de valor, faz.
Há casas portuguesas com grande know how em termos
de gestão de risco de crédito. E esse know
how é reconhecido por clientes institucionais.
Crê então que as casas estrangeiras continuarão
a ter
apenas as franjas do mercado?
Sim.
E mais. Dedicados a clientes institucionais que normalmente
têm um conhecimento maior. Porque há outra
questão da indústria portuguesa, é que é uma
indústria muito “bancarizada”. Os produtos
de fundos basicamente são vendidos em bancos...
Que
no
retalho só vendem os produtos da suas sociedades
gestoras....
Não vendem só. A maior parte dos bancos
têm aquilo que se chama arquitectura aberta. Há,
obviamente na área de private, fundos de casas
estrangeiras.
Mas
a grande
questão está no retalho. O BES,
por exemplo, não vende produtos de sociedades gestoras
concorrentes
em alternativa aos fundos da ESAF.
Mas
vende o Best.
São entidades diferentes. Não concorrem
entre eles. Estou a falar de retalho, dos balcões
do
BES.
Porque
o próprio retalho tem maior dificuldade na percepção
da oferta desses fundos.
Porque
não então aconselhar as pessoas?
Sim,
mas então aconselhe-se para fazer crescer aquilo
que é português. Se nós conseguimos
ter um fundo de obrigações de taxa indexada
em Portugal que não está tão vulgarizado
lá fora, se conseguimos ter um fundo de taxa fixa
europeia tão bom quanto um fundo de taxa fixa das
casas estrangeiras, se conseguimos ter um fundo de acções
europeias em Portugal, tão bem gerido quanto os
outros, porque é que não se hão-de
promover estes fundos? Mas se não temos fundos
da China e Mercados Emergentes, então há aqui
espaço para as casas estrangeiras.
Então na sua óptica a arquitectura aberta
no retalho servirá apenas para complementar os
fundos da casa, onde esta não tenha oferta?
É
aquilo
que tem acontecido.
Acha
que
devia ser uma preocupação do Governo
estimular a indústria de gestão de activos
portuguesa?
Acho
que é sua obrigação, não proteger,
mas estimular. Deve dar à indústria as condições
de competitividade para conseguirmos concorrer com as
gestoras internacionais. Hoje em dia, o que vêm
cá vender as gestoras internacionais? Onde é que
têm os seus fundos? São produtos cotados
no Luxemburgo. Em vez de incentivarem a indústria
a fazer produtos no Luxemburgo para vender em Portugal
ou vender em Espanha, deviam incentivar a vender fundos
portugueses em Portugal, e que sejam competitivos em termos
internacionais.
Mas
o que falta afinar para que o sejam?
Falta
um mecanismo fiscal que permita que os investidores não
residentes consigam facilmente considerar o imposto pago
nos seus domínios fiscais.
Mas
então não era melhor dar seguimento ao que
foi proposto por este governo no Orçamento de Estado
de 2005 e ficou esquecido de alterar a tributação
na fonte para uma tributação à saída,
em
sede de IRS, como acontece na Europa?
Uma
mudança do regime fiscal deve ser muito bem pensada,
porque acima de tudo, um regime tem de ser estável.
Não seria importante uniformizar com o
que se passa na Europa, para podermos concorrer com os
nossos produtos
no
estrangeiro?
Isso é tremendo, vamos começar por Portugal.
Se nós conseguirmos que todos os produtos financeiros
tenham uma harmonização fiscal, e que não
exista aí um factor fiscal de arbitragem, já era
muito bom. Devia-se começar por aí.
Então isso não é prioritário
para a competitividade da indústria portuguesa?
Não vejo como essencial. Basta fazer ajustamentos
no
regime actual e pensar numa uniformização
de
todos os produtos financeiros. Até porque para
os
investidores esta solução é muito
mais
cómoda, porque recebem as rendibilidades já líquidas
de imposto,
e é mais
fácil
de fiscalizar.
“Certificados
de reforma não são PPR”
Considera
que os Certificados de Reforma
do Regime Público
de Capitalização,
conhecidos como o PPR público,
vieram fazer uma concorrência
desleal face aos fundos?
Sim,
não é uma
concorrência
leal. Há um
produto a que puseram o epíteto
de PPR público
e que não é um
PPR, não
tem as mesmas condições
de supervisão,
não
tem as mesmas condições
de transparência
de informação,
não
se conhecem os custos, a composição
da carteira, o regime fiscal
aplicado à saída,
etc.. Como é que
se pode afirmar que aquele
produto vai dar em média
5,5%? Sabe-se lá quanto é que
uma carteira vai dar no futuro!
Não é correcto
fazer-se uma afirmação
desse tipo, comparando apenas
com outra realidade que é o
Fundo de Estabilização
da Segurança
Social. Quem comprar com esse
pressuposto, está protegido?
A quem é que
se vai queixar? Mas o problema é maior
do que esse. Deve-se olhar
para o sistema de segurança
social como um todo e nos
três
pilares que o devem sustentar.
Investiu-se com os certificados
de reforma no terceiro pilar,
onde estão
os PPR e funcionavam bem,
em vez de se apostar no segundo
pilar que é onde
há efectivamente
um défice
enorme. Porque não
de facto investir nos complementos
de reforma, e incentivar os
complementos que as empresas
possam dar aos colaboradores?
Como é que
se aposta então
no segundo pilar?
Incentivando
mais as empresas a fazer complementos à segurança
social, nomeadamente através
de benefícios
fiscais.
As
pessoas estão
cientes que daqui a 20 anos
não
vão
ter uma reforma que lhes permita
manter o nível
de vida que têm
hoje?
Acho
que não.
Penso que cada vez mais
falam disso, apercebem-se
do problema,
mas não
sei se têm
consciência
que têm
de fazer qualquer coisa
para o resolver. Isto
tem de ver
com a estrutura da poupança
em Portugal, as pessoas
vão
perceber que não
podem continuar a
endividar-se desta
maneira e que vão
ter de poupar para
a reforma. Se aos 20
e tal ou 30 anos
ainda muita gente
está preocupada
com outras coisas,
entre os 35 e 40 têm
de se decidir e começar
a poupar, porque
vão
receber 50% dos seus
salários
quando se reformarem,
e isto é uma
perspectiva conservadora.
Ainda falta alguma
cultura financeira
em Portugal. Devíamos
também
formar as pessoas
em termos financeiros,
na sua formação
desde o ensino básico.
Faz parte da sua
cultura e formação
como cidadão,
e estes são
ensinamentos
tão
ou mais úteis
do que outras
coisas que se
aprendem na
escola. Só com
formação
e educação é que
se pode escolher
bem.
Um
gestor apaixonado pela
terra
Fernando
Coelho
discute
com
entusiasmo
o mercado
de
fundos
português.
Mas
um
brilho
nos
olhos
vem
quando
fala
da
agricultura
e jardinagem,
as
suas
duas
paixões
assumidas.
Deixa
de
lado
os
números
que
ocupam
grande
parte
do
seu
tempo
e ao
fim-de-semana é o
apelo
da
terra
que
move
este
homem
que
aos
43
anos
preside à APFIPP.
E fala
como
um
especialista
dos
tipos
de
espécies,
dos
problemas
da
agricultura
e até das
pragas,
partilhando
a técnica
que
utiliza
para
afastar
os
pássaros
das
suas árvores
de
fruto:
pendurar
CD
nos
ramos.
Desde
cedo
que
se
começou
a interessar
pelas
questões
financeiras,
e foi
aos
26
anos
que
fez
o seu
primeiro
complemento
de
reforma.
Adepto
da
regra “quem
não
tem
dinheiro
não
tem
vícios”,
defende
que é essencial
aforrar
e pensar
no
longo
prazo.
A sua
máxima
de
investimento é não
pôr
todos
os
ovos
no
mesmo
cesto.
Na
sua
carreira,
Fernando
Coelho
passou
pela
PriceWaterhouse & Cª,
no
Banco
Comercial
Português,
na
CISF
e no
BCP
Investimentos.
Na
ESAF
está desde
1993,
onde
em
2005
assumiu
o cargo
de
CEO.
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