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Nós por cá


04-07-2008, Inês Serra Lopes

Não é fácil governar durante uma crise – na verdade, não é fácil governar. Especialmente durante uma crise. Em política, tem-se assumido que o discurso da crise deprime ainda mais as economias, afugentando o investimento e a criação de emprego e de valor. E agravando a crise.
Só esse medo de contribuir para a depressão dos agentes económicos e para o agravamento das expectativas dos consumidores explica os ziguezagues que o Governo de José Sócrates tem feito e as reviravoltas que tem dado no seu discurso e na sua praxis.
Tomemos a descida de um ponto percentual na taxa do IVA. A medida foi anunciada em Maio pelo ministro das Finanças. Teixeira dos Santos explicou na altura que, tendo conseguido conter o défice, o Governo queria “reduzir o esforço solicitado em 2005 aos cidadãos”. Um prémio, no fundo.
Esta semana, Manuel Pinho deu toda uma nova dimensão à descida do IVA que agora entrou em vigor. Passeando pelos supermercados qual fiscal de preços, como lhe chamou Medina Carreira, o ministro da Economia explicou que a descida da taxa máxima do IVA para 20% é uma medida de âmbito social. Primeiro azar de Manuel Pinho: a maioria dos produtos de primeira necessidade estão sujeitos a taxas mais baixas de IVA, que se mantiveram inalteradas. Ou seja, as famílias mais pobres beneficiarão pouco ou nada com esta redução do IVA. Segundo azar de Pinho: os preços não desceram. O cabaz de compras que esta semana fizémos mostra qua alguns preços chegaram mesmo a aumentar (v. notícia na página 21). Terceiro azar de Pinho: o seu passeio pelos supermercados revelou, de forma grotesca, até onde pode chegar a tentativa de propaganda do Governo. E, nesse sentido, o passeio do ministro da Economia é exemplar. Mostra que o Governo está amarrado e pouco pode fazer para diminuir os reflexos da crise petrolífera, da subida dos preços dos géneros alimentares e das taxas de juro e da ameaça de recessão que paira sobre as cabeças dos portugueses e sobre o resto dos europeus.
A entrevista de Sócrates. Esta semana também, o primeiro-ministro, em entrevista à RTP, respondeu às críticas de Manuela Ferreira Leite e anunciou algumas medidas para minorar os efeitos da crise económica sobre as famílias mais desfavorecidas. Medidas que terão efeitos muito reduzidos. A entrevista de José Sócrates também foi exemplar. Mostrou um primeiro-ministro que chega bem para a nova líder do PSD. Mas que não chega para sossegar os portugueses e para lhes transmitir confiança no futuro.
Entretanto, com o sentido prático que se lhe reconhece, o grupo parlamentar do PS aprova hoje uma resolução que equipara a pobreza a uma violação dos direitos humanos. Nós por cá, todos bem.

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